sexta-feira, setembro 15, 2006

os olhos seguem o espelho
aguardam o momento oportuno
passas pelo outro lado
e diz "oi" como quem brinca
desejo-lhe, boa noite
o tempo pontual atravessa-nos
sigam todos, sigam
me digam, o que há mais a ser dito
lamento então, novamente
gostaria de mais, demais
pois teu gosto indelével
perturba meu paladar

terça-feira, agosto 08, 2006

nada

O tempo do tempo é infindávelmente inatingível
em meio à multidão desconhecida passa, intangível
ponto significante no cerne caótico da rua
reconhecido e visto, perto o bastante para os olhos
intocável ao tato, tolhendo os dedos de seus desejos
à nos sobra apenas a vida, impensável vida
indizível e inegável
o que nos resta então?
dizer o que não devemos
beber o que não podemos
saber o que já sabemos
eis que a vida surge novamente
inscrita em prosa e verso naquilo que nos significa
a, b, c, e todo o resto
que não cabe no grafite e na linha reta
e no entanto é vida como todo o resto
na potência do segundo
esconde-se tudo
tudo

quinta-feira, junho 29, 2006

os pássaros

Eis que em meu peito se apresenta
dor familiar, velha conhecida dos dias frios de inverno
entra arrebatadora desviando as atenções
ocupando imenso espaço vazio
enquanto me encontro em infinita labuta
encerro a vida demasiado curta
em quatro paredes, sem cortinas
espero a banda passar, esperançoso
passará, passará

quinta-feira, maio 25, 2006

por aí

do outro lado da rua
avizinhava-me das ondas
e do barulho do mar
desfiando os minutos
tecendo a paciência
carinhosamente
a ansiedade
pelo teu semblante
passageiro

sexta-feira, maio 05, 2006

a água se espalha no pára-brisa lembrando a vida
milhões de gotículas que são uma só massa intangível
e mesmo assim, só prestamos atenção àquelas gotas maiores
que escorrem solitárias vidro abaixo
traçando um caminho tortuoso, empurradas pela gravidade
o fim entretanto, é desconhecido

sexta-feira, março 17, 2006

Em fim sós

Cruzei contigo numa dessas esquinas movimentadas. Delírio.
Por um brevíssimo instante fui marcado por seu vermelho intenso, o memso que deixaste ao sair. Desespero.
Atravessaste a rua como um acidente de trânsito. Comoção.
Seguiu subindo a avenida arrastando a multidão com teu perfume de sol. Medo.
Avisei a todos que seguissem seus caminhos, apelo em vão. Amor.

Pois diga me a verdade, por fim, a verdade. Que o olhar que atravessou a rua não me encontrou no mar de gente, e seguiu só. Solidão.


quarta-feira, novembro 09, 2005

Indicador

Amo-te
como um cego a um Van Gogh
as pontas dos dedos
vêem mais
que os olhos

segunda-feira, outubro 24, 2005

ainda colore teus dias com os tons que deixei
mesmo que desbotados e sujos, manchados
o que foi sempre está; e aliás, como tem passado?
por aí, tudo bem? sim sim, melhor impossível

sexta-feira, outubro 21, 2005

Desadornado

Dê me o chão, não mais
para deitar nele minha fé
num amor horizontal
ocultando o distinto
conhecendo-se o notório
falta-me o manifesto
irônico ou simpático
roubado

sábado, setembro 24, 2005

Bem que me disseste que nada seria como antes
e que mesmo que os dias passem calmos a maior parte do tempo
e a água fria me lembre a todo momento que estou vivo
ainda assim
Bem que me disseste que era assim mesmo
que as tarefas mais simples são as mais dolorosas
pois se repetem a cada dia com uma estranha semelhança
ainda assim
Não me disse aquilo que mais precisava ouvir
porque não há lugar melhor para se estar
que nas tuas palavras doces, em teus lábios
ainda assim
ainda assim
Só penso em ti

[Para ser lido ao som de The Blewer´s Daughter - Damien Rice]

terça-feira, setembro 13, 2005

Crediário

Acredito no que me atravessa a cada dia.
Nas coisas pequenas e lindas. Nas grandes e catastróficas.
No desespero infinito daquele que não sabe lidar com sua própria vida, no amor sincero daquela que ama outro a cada dia, na hipocrisia insana daqueles que tiram tudo para si e na pele da gente que carrega a verdade mais geográfica.
É que a vida não cabe nessa fé que segue religiosamente os mesmos preceitos, as mesmas linhas e os mesmos ritos. Não acredito nessa fé que se vende na esquina, que cabe em uma imagem de santo ou de cristo ou de buda.
Eu faço do mundo que vejo, e que vivo a minha fé. Ela não vive depositada num futuro infinito nem enterrada num passado milenar que se vende a cada dia 25.
Acredito nas pessoas que me cercam e na potência que criamos quando resolvemos tomar a vida como fé, sem esperanças e sem desesperos.
Creio, hoje.

segunda-feira, setembro 05, 2005

o último

Causa pouca é justa quando digo que quem faz de mim um tolo não são os outros
além de ti, é a outra que diz por onde andas quem torna tão difícil os fins
pois que os meios que encontro de te dizer o que penso apenas conservam meus sentimentos
de que no fundo és sempre a última a saber de mim
mesmo ao meu lado, um par perfeito formado
que o álcool não me deixa mentir pouco quando digo
que o fim é finito e há de ser o que será
a vida sempre me pregando peças
me prova que aquilo que interessa
já não mais está

sexta-feira, agosto 26, 2005

Faz-se a face

Começou com luto. Cresceu e firmou-se espessa, um negro escudo contra lábios incautos e mãos alheias em suas rondas constantes. Fundiu-se ao todo, uma máscara delineando um rosto que não aquele do espelho. Adorno de guerra, pesa como uma medalha pesa ao soldado que a carrega com orgulho e pesar. Presta a marca da virilidade responsável daquele que sente e sabe que é com os olhos é que se vê. Pois se agora já pode se dispensar as medalhas é somente pela boa companhia.

terça-feira, agosto 16, 2005

Necromantes

os ponteiros proclamam
há muito já se foram
no entanto resistem
insistem em clamar por vida
em infiltrar as vidas
dos que se salvaram
ao invés do exílio
tramado, cindido
forjado e fundido
fujo à passos largos
à galope ou ressalto
chegas sempre de assalto
fico mudo, incauto
exausto

sexta-feira, agosto 12, 2005

não me leve a sério
eu sei, não faz mal fingir que não é assim
mas quem disse que é esse o nosso jogo
não vou dar o troco só pra revidar
então faz o seguinte
deixa tudo como está e se faz de morta
que essa vida torta
só me fez assim
vira pra lá e me deixa dormir
que amanhã eu trabalho
eu te amo, caralho
e vê se me esquece
a gente carece
é de pão

sexta-feira, agosto 05, 2005

Enquanto ela pensa as palavras deslizam cortando a garganta:
- Pinta teus cabelos de preto e volta.
Os olhos dele permanecem impassíveis. Seu corpo entretanto, não sabe mentir e cede.
Minutos marcham militarmente.
Ele então responde:
- A tinta não vai levar embora o velho rude que me tornaste. Sou grosso além dos cabelos brancos.
A vida girou junto à maçaneta. O vento frio sob a porta estacionou-se sob os quatro pés.
As súplicas dela soam como uma oração.
- Meu Deus, por favor me escute! Tudo o que te peço é que volte...
Mas ele não acredita em Deus. A porta se abre lentamente.
- Não é que eu não queira, entenda. É que da morte não se pode voltar.

sexta-feira, julho 29, 2005

Quero a vida que se torna mais vida
o sonho que não se sonha
passos que se firmam apenas para saltar além
sem se dar conta de que não há chão
de que não há nada além de mim e de você
a potência do sem fim que se acaba a cada segundo
Quero estar errado, persistir no erro e vivê-lo
pois não há erro, somente teus olhos
e o som que me carrega, que me guia, me ensina
me desvia, me cega e me chora
e é com ele que choro, o leite derramado
que insisto em colher, e colher
mesmo que nada se colha senão a dor
mas se é a dor que me faz cantar
que me faz viver
que me faz sonhar
que me faz
?

domingo, julho 17, 2005

Eis que surges novamente
traz as novas do outro lado do mundo
das terras geladas que insistem em soprar
suas brisas cortantes sobre meus ombros cansados
és o mensageiro mais fiel
porém as notícias que traz nunca vêm desacompanhadas
carregam consigo sempre outras, intrusas, amaldiçoadas
e é assim que o frio penetra sorrateiro, mordaz
pois que o fogo que me aquece é forte
e me faz forte para honrar o nome
e levantar os meus estandartes
para mostrar ao mundo o urso que carrego dentro de mim

sábado, julho 02, 2005

Acordei sentindo falta do teu azul
busquei no céu um pouco de ti
no risco do lápis fiz um rosto
tuas linhas vão sempre ao infinito
dois passos e continuo aqui
a borboleta vem me fazer companhia
ela canta e me leva às lágrimas
inundo os ponteiros mas o relógio continua
os gatos acenam sorrateiros
a firmeza das tuas rochas me inspira
um homem fala às pessoas, elas ouvem
mas a dama rouba a cena graciosa
ela desliza como se soubesse voar
me diz que deveria ser mais sábio
mas não é o tolo o mais sábio?

quarta-feira, junho 29, 2005

As linhas

Seria fácil se fosse dito, mas não foi
poderia ser simples e sem rodeios
mas foram-se os dias, correram as horas
de ti não se ouviu notícias
de mim, bondades
pois que hoje o é tão pesado, tão sinistro
só pode ser quebrado assim...
com perdão